Deve ter sido uma mulher idiota, engolidora de sapos, que cunhou a frase: “uma pessoa tem dois ouvidos e uma boca, para que ela escute mais e fale menos”. A boba aqui, durante anos, ouvia, refletia e ainda tentava entender os motivos escusos que os homens usavam para dar qualquer explicação ou, melhor ainda, a total falta de uma. Aprendi na marra que não compensa levar a sério essas balelas gratuitas. Ao invés de eu ter essas frases como lições que aprendi, eu as tenho como cartas na manga para jogar numa conversa sobre ridicularidades.
Em homenagens a esses homens, faço aqui o ranking das 13 (dizem ser este o número do azar) maiores rabugices que eu já ouvi até hoje.
1. “Desligue o ventilador mecânico, o paciente já deu morte cerebral”.
Mulheres, por favor, não namorem médicos. Eles têm uma forma muito peculiar de terminar um relacionamento. Peculiar, nada; covarde, mesmo. Você se sente uma indigente. É uma pena que eles não tenham a licença para a prática cassada por fazerem diagnósticos imprecisos e por não terem nenhum tato para mascarar seu próprio erro médico.
2. “Eu não posso ficar com você: eu não posso trair a mim mesmo”.
Até hoje eu não entendi o que este cidadão quis dizer com essa frase. E, depois de muito observar o comportamento dele em relação a outras mulheres, cheguei à conclusão de que ele não queria ficar comigo porque ele teria de ser menos idiota. Ele até podia fingir ser interessante, mas fingir ser grande coisa seria realmente uma traição moral. Ao menos, ele teve consciência da pequenez que o aflige.
3. “Sim, eu sou frio assim mesmo. Isso te incomoda?”.
Eu e um carinha começamos a namorar 5 dias antes de entrarmos de férias na faculdade. Eu fui para a casa dos meus pais e, em duas semanas, ele não me ligou um dia sequer. Mesmo assim, eu viajei 10 horas num ônibus horroroso só para me encontrar com ele. Ao ser perguntado por que não havia me ligado, ele deu umas desculpas muito primárias, o que me levou a fazer a pergunta que resultaria nesta frase acima, como resposta. Não, isso não se trata de sinceridade da parte dele. Terminei o namoro mais rápido da minha vida, que, por motivos de praticidade, nem coloquei em minha lista de namorados. Antes só do que conviver com uma geladeira.
4. “Eu não vou beijar você. Ando muito nervoso ultimamente e isso me daria náusea”.
Essa frase também foi dita pelo médico (que ainda aparecerá outra vez neste ranking). Novamente, repito, ele realmente tem muito tato! Até hoje, se ele ler esta lista, ele tentará explicar que aquilo que você entende ao ouvir não é bem isso que ele quis dizer, mas isso não me importa mais. Dá náusea ouvi-lo falar.
5. “Quem andou neste carro?”.
Eu ia buscar um antigo namorado na faculdade e ele, ao abrir a porta do antigo Capeto, ao invés de me perguntar como eu estava, ele já ia fazendo essa pergunta ignóbil. Todo dia era a mesma coisa: ele se sentava no banco carona, observava a posição da cadeira, se estava mais à frente ou mais atrás, se ela estava mais reclinada, e me olhava como se ele fosse o pobre Bentinho e eu fosse a dissimulada Capitu. Ele sofria de insegurança doentia e sempre encrencava com um certo amigo meu, com o qual eu nada tinha, ao qual podemos, então, chamar de Escobar. Foram oito meses ouvindo a mesma patetada. Até o dia em que eu respondi: “Quem andou aqui foi o Escobar, mesmo. E ele simplesmente não andou. Nós fomos pro mirante e nós trepamos aí neste banco em que você está sentado”. E então expulsei o Dom Casmurro da minha vida. Sempre acreditei na inocência da Capitu, embora o Bentinho merecesse muito chifre.
6. “Você me liga mais tarde, para saber se eu vou querer falar com você”.
Isso é exemplo-mor do cúmulo da covardia, da canalhice e da molecagem. É auto-explicativo, e eu não preciso ficar gastando palavras (que não são baratas) em nome deste mané.
7. “Ai, minha taça de cristal!”.
Eis o médico de novo, finalmente demonstrando quais são as suas verdadeiras prioridades. Passei três horas conversando com o mancebo distinto e nobre (ao menos, ele queria se sentir assim), tentando defender a minha honra de tantas acusações injustas e da transferência de culpa para minha pessoa. Durante três horas, ele se manteve impassível, como se fosse um psiquiatra defronte um paciente de alta periculosidade. Durante três horas, nem sua expressão facial se alterou. Isso me enervou tanto que eu cometi uma violência (merecida): dei um tapa na cara dele para ver se ele reagia. E ele… não reagiu. Apenas deu um passo para trás por precaução e seu calcanhar esbarrou numa taça de cristal repleta de vinho que estava sobre o chão. A taça caiu, quebrou-se em mil pedacinhos e espalhou vinho para todo lado. E foi aí que ele, com um esgar pavoroso no rosto, saiu correndo para a área de serviço para pegar um pano, gritando que ele havia comprado aquela taça na PQP da Europa, que agora ele não teria mais o conjunto completo, que o líquido tinto poderia manchar o piso de ardósia e assim comprometê-lo na hora de devolver o apartamento alugado para o dono. Entenderam, né?
8. “Diga que me ama. Estou mandando!”.
Tem gente que precisa ouvir essa frase de três palavras a qualquer custo. Isso não significa que eu seja obrigada a dizê-la. E eu acabei dizendo para suprir a carência da pessoa, que certamente não era muito democrática.
9. “Eu não vou dizer que te amo agora, não seria verdadeiro”.
E eis o outro lado da moeda, para provar a vocês que eu já vivi o 8 e o 80. E eu não obriguei nem pedi que o cara (que é o mesmo da frase número
me dissesse nada. Então com ele era assim: “agora eu não te amo, mas daqui 20 minutos posso mudar de idéia, depois voltar a não amar mais, mas você tem que amar o tempo todo, nem que obrigada”. Não gostei da brincadeira. Obrigada.
10. (Frase retirada. Veja nos comentários)
11. “Você veio de van?”.
São nas situações inusitadas que você conhece a verdadeira personalidade de um idiota. Sabe aquele momento em que você não está esperando se encontrar com alguém mas se encontra? O que falar? Pois é. Ou esse cidadão quis ser diferente ou é banana mesmo. De um zilhão de combinações que poderiam ser feitas com as palavras da rica língua portuguesa, ele lançou mão dessa. Nós já éramos ex-namorados e acabamos nos encontrando numa prova, em São Paulo, em que ficamos na mesma sala por causa da letra inicial dos nossos nomes. Eu o encarei incrédula e disse: “Olha só! Meus pais me ensinaram a dizer oi quando se encontram pessoas conhecidas na rua”. E ele ainda achou que eu fui grossa. Ah, tadinho, Senhor Menezes!
12. “Obrigado pelo apoio logístico”.
É, pelo visto, o cidadão da frase acima tem tara por meios de transporte. Além de ter mencionado a van (sim, é o mesmo da frase número 11) e de, em outra oportunidade, eu o ter encontrado em pleno metrô paulistano, eis que ele me deixa um bilhete, com os dizeres acima, no pára-brisa do meu carro. Isso se deu porque nós estudávamos francês juntos e, numa das festas promovidas pelo cursinho, ele encheu a cara e eu fui a imbecil que o levou para casa, num sublime ato de boa vontade, pois eu não estava mais com o mané. E foi desta forma que ele me agradeceu. Prova de que ele realmente sabe bem escolher as palavras. Falando nisso, ele era um cara que achava que eu escrevia terrivelmente mal. Mal sabe ele que, ao fazer o vestibular da Unicamp, a minha redação foi escolhida a melhor dentre 80 mil candidatos e foi publicada no livro anual da universidade. O tema sobre o qual escrevi? Rá! Meios de transporte.
13. “Senhorito, não. Lembra cenourito. Isso não pega bem”.
Last but not least. O cara cismava em me chamar de senhorita, de usar um vocabulário empolado, cheio de polvilho anti-séptico Granado e leite de alfazema da Phebo, ao se dirigir à minha pessoa. No início, o excesso de cavalheirismo chamou a minha atenção, mas depois se revelou algo embaraçoso. Muita conversa, pouca ação, como na música do Elvis. Estava ficando enfadada. Então eu decidi provocá-lo, perguntando se na sua sapiência parnasiana ele sabia se havia em português um tratamento específico para homens solteiros, talvez um “senhorito”. Ao que ele imediatamente reagiu com a contribuição acima. E salientou a parte do “senhorito lembra cenourito”. Isso foi um sinal, mas eu resolvi arriscar, persistente que sou. E ele tinha razão em não querer relacionar uma coisa com a outra. Nada contra, o problema é que ato falho realmente ocorre. Freud explica.