Por outro lado

Tudo tem, pelo menos, dois lados

Detalhes tão pequenos de nós duas Dezembro 3, 2007

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 7:14 am

Minha vida e eu

Um simples passeio pela rua pode revelar coisas interessantes sobre mim mesma. Falando assim, até parece que cada dia que eu vivo é cheio de grandes acontecimentos. Mas não é bem assim. Eu estou me referindo a detalhes do cotidiano, que passariam batido a olhos mais acostumados a ver os pequenos acontecimentos como garantia. È verdade que eu penso demais, mas simplesmente eu não consigo deixar passar as coisas que eu percebo na minha relação com o mundo. Não que eu seja especial ou queira me fazer parecer como tal. Não, essa é apenas a forma que eu aprendo a viver.

Gostaria de descrever um pequeno intervalo de quatro horas deste meu domingo.

Para começar, eu saí só. Há muito, é claro, que eu venho me divertindo sozinha, desde que eu morava em Campinas. Sim, isso soa triste, não ter companhia para um cinema domingo à noite. Eu costumava pensar em quão deprê era estar numa situação dessas, até que eu aprendi que eu também posso me divertir comigo mesma numa boa. Ainda mais que já reclamaram comigo que eu falo muito durante a exibição de filmes. Cinéfila que sou, é realmente difícil me abster de algum comentário sobre atores, diretores ou equipes técnicas, “detalhes” que eu acompanho com muita curiosidade. Agora, quando eu vou ao cinema, e estou sozinha, o casal ao lado pode até achar estranho eu estar vibrando com alguma coisa aparentemente sem importância, mas lá estou eu apenas a aprimorar meu hobby favorito.

E talvez seja até melhor fazer esse programa sozinha. Durante o filme, eu esqueço do resto, inclusive da minha companhia, absorvida que eu fico com aquilo. Um amigo meu certa vez me disse: “Você acredita mesmo em cinema”. E talvez ele tenha razão. Não faço questão nenhuma de ser espertinha e tentar adivinhar o final quando ainda estão se desenrolando as primeiras cenas. Do contrário, qual é a graça? Eu não me importo quando eu sei ou quando me contam o final do filme. Eu acho que o importante é observar como o enredo chega até lá. Há outro detalhe aqui: não, eu não saio de uma sala de cinema, nem que seja o pior filme da face da Terra. Eu entendo que nem todos têm esta resiliência. Eu só peço que, se for o caso, os incomodados se retirem; odeio quando ficam xingando o filme nos meus ouvidos. Agora, quando eu saio da sala, a minha crítica é feroz. Mas a gente não pode criticar se não viu a história toda, não é mesmo? Isso eu aprendi na teoria do jornalismo, algo, aliás, que só eu estudei na faculdade. Talvez por isso eu tenha desistido de ser jornalista e virado professora. Professora de inglês.

Depois eu comprei uma agenda para o ano que vem. Sobre isso, dois “detalhes”. Um, o de eu estar, cada vez mais, preocupada em anotar meus compromissos e ter a satisfação de riscá-los quando cumpridos. Isso me dá uma sensação muito visível de o quanto eu estou ficando mais responsável. Dois, o fato de eu preencher o formulário de dados pessoais de uma maneira muito particular. Eu notei que eu escrevo o endereço e o telefone a lápis. Há algo dentro de mim que sempre diz baixinho: por que eu vou colocar essa informação a caneta, vai saber lá onde eu posso estar amanhã? São nesses detalhes que eu observo meu coração migratório e minha vontade de bater asas assim que o vento da boa oportunidade soprar em minha janela.

Na hora de ir para casa, outro detalhe curioso. Eu havia estacionado o carro num local muito próximo à saída. Sim, eu poderia ter embicado o carro em direção ao caixa e ido embora pra casa rapidinho. Mas não o fiz. Eu dei a volta no estacionamento para fazer o trajeto regulamentar e isso demorou uns 15 minutos. O dia em que eu dei uma de joão-sem-braço e dei ré em quase metade de uma rua para colocar o carro numa vaga única, sem precisar ter que dar uma volta de quatro quarteirões para chegar até ela novamente, eu passei o dia inteiro pedindo desculpas a mim mesma. Os detalhes mostram o quanto eu obedeço às regras, mesmo que implícitas, das coisas. Às vezes eu chego a ser bem quadradinha, com mania de combinar roupas, sapato com bolsa e até brinco com anel; organizar o carrinho de compras, separando secos de molhados, comestíveis de não-comestíveis, perecíveis de não perecíveis, e mantendo isso na hora de passar os produtos na esteira do caixa. Até minha bagunça tem uma certa ordem. Se isso é bom, eu já não sei. Dizem que eu sou perfeccionista e a fama, pelo que tudo indica, é procedente.

Pelos meus meros detalhes, dá para perceber quem eu sou, não? Pois é. Mas há aquelas pessoas que descartam isso. Preferem ficar esperando o momento bombástico para a vida ter sentido, enquanto os segundos passam. São pequenos esses segundos, mas somando-se todos eles, tem-se um dia inteiro. É por essas e outras que eu tenho acreditando sempre mais que os segundos deviam ser os primeiros.

 

4 Responses to “Detalhes tão pequenos de nós duas”

  1. Ju Cetrim Says:

    Te encontrei domingo!!!! Adoro filmes tb e não ligo de saber o final antes (alias adoooro spoilers de tudo, livro, seriado, filmes), só ainda não cheguei a esse grau de liberdade de ir ao cinema sozinha. Não acho depressivo, demonstra q vc é independente e não precisa esperar os outros pra se divertir. Mas se quiser companhia, estamos ae pra ficar comentando os filmes (adoooro fazer isso tb), hehehe

    Bjos!

  2. poroutrolado Says:

    Não, jamais esperar para viver.
    Jamais guardar a roupa nova para um dia especial.
    Jamais guardar palavras para o dia em que elas não mais fizerem sentido.
    Não dá… Meu tempo,como diria Paulinho da Viola, é hoje.

    Bjokas!!!

  3. Thiago Says:

    No cinema sou bastante parecido! As pequenas diferenças residem no fato de que costumo ficar quietinho durante a exibição e me importo SIM se me contam o final. Aliás, acho uma bênção quando posso sentar numa cadeira de cinema sabendo nada além do título do filme e das cores predominantes do poster.

    Parabéns amanhã.

  4. Thiago Says:

    Boas Festas… Escrevam quando puderem.


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