Por outro lado

Tudo tem, pelo menos, dois lados

Questão de ponto de vista Março 28, 2008

Arquivado em: O lado da Fernanda — migratoria @ 5:01 am

 

Hoje ela resolveu tentar um batom vermelho. Eu gostei, ela não. Logo ela saiu e voltou com um pedaço de papel e arrancou a coisa fora. Seus lábios ficaram rosa escuro. Ela ainda ficou um tempo me encarando. Eu não disse nada.

Virando o rosto de um lado a outro ela observou a pele. Eu via os poros abertos, alguns cravos, uns pontos vermelhos de potenciais espinhas; via o desenho irregular das sobrancelhas, o nariz grande e a testa ainda sem marcas de expressão. Certamente ela também via, tanto que resolveu aplicar sobre tudo aquilo um líquido claro que pretendia esconder suas imperfeições. Eu achei que não escondia, mas a luz especial que ela acendeu fez com que a coisa funcionasse.

Ela então resolveu pegar o lápis de olho. Aproximou-se de mim, puxou com a mão esquerda a pálpebra direita e com a mão direita desenhou um traço preto e fino junto aos cílios. Sim, eu notei que estava um tanto torto, mas também não disse nada. Ela piscou, olhou profundamente para mim e sorriu. Eu também sorri.

Ela voltou a fazer os mesmos movimentos sobre a pálpebra esquerda e ali também tinham traços tortos. Ela piscou e sorriu novamente. Sim, o conjunto era lindo.

Pegando de um cotonete ela fez sombras em verde escuro pouco acima dos traços anteriores em ambos os olhos. Passou um pente pelos cílios, o que os deixou alinhados. Ela piscou repetidamente até o olhar pousar sobre mim com um carinho apaixonante. Eu me derreti, mas não disse nada.

Então ela voltou ao batom. Agora ela parecia não querer errar, porque ela abriu e estudou concentradamente diversas embalagens. Ela pegava uma delas, vinha para perto de mim, fingia passar nos lábios mas desistia. Fez isso umas cinco vezes até que ela pegou um gel quase transparente e passou. Houve brilho mas não cor. Ela me encarou séria, e eu achei melhor não dizer nada.

Ela soltou os cabelos que estavam presos e escovou os fios por inteiro. Ela sabia que aquilo era bonito e eu admirava com prazer. Deixei ela fazer a coisa com cuidado. Ela prendeu de um lado só, depois de outro só, até se decidir deixá-los livres mesmo. Apagou a luz especial que havia acendido há minutos atrás e sobre ela caiu apenas a luminosidade natural. Ela estava satisfeita. Eu também, e tanto estava que não disse nada.

Então eu ouvi vozes vindo da porta. Ela se afastou de mim por uns instantes e, quando voltou, não estava sozinha. Ela tornou a me encarar e, assim como ela, achei estar linda. Mas a outra moça que estava ao lado dela, que eu não conseguia ver, apenas ouvir, disse:

- Que você fez? Nem parece que se olhou no espelho. Tá horrível isso!

E eu pensei cá comigo: ora, bolas! Então o que é que eu podia fazer?

 

Reflexões De Um Espelho Março 10, 2008

Arquivado em: O lado da Vanessa — poroutrolado @ 9:05 am

Não dá para passar inerte por um espelho. Definitivamente. Pelo menos comigo é assim e acho que com a maioria das pessoas. A vida pode estar corrida, você pode estar atrasado, pode estar até chovendo, mas ao passar por um espelho você pára. Pelo menos por alguns segundos. Nem que seja para tirar o cabelo que está na cara.

Quanto maior, mais difícil fica de ignorá-lo. Paredes tomadas por espelhos, então! Uma loucura. Praticamente impossível não parar um pouco para ajustar a roupa ou dar um sorriso. Lógico, fingindo que aquele sorriso não é para o espelho. Apenas um ensaio de como fazer quando encontrar aquela pessoa. Ou, melhor dizendo, outro espelho.

Porque, sim, pessoas, realmente, são espelhos. Sejam elas amizades, namorados, parentes, ou desconhecidos. Todos são espelhos e refletem umas às outras. Nem sempre por inteiro, nem sempre no primeiro momento. Às vezes mostrando qualidades, às vezes defeitos, mas espelhos. Não iguais! Isso já é outra coisa…

Eu sei, a falta de luz pode não ajudar a visão em algumas situações. Só não se desespere se isso acontecer. Basta ter paciência e tato para encontrar e apertar o interruptor. Um abajur talvez. Caso contrário, a escuridão, com o tempo, se tornará presente o suficiente para que a vista se acostume. Mesmo que você não queira, os detalhes serão identificados. Ao menos que prefira fugir e fechar os olhos. E esta pode ser a pior opção…

E, lógico, acontece da pessoa fingir não perceber o outro. Não é fácil se encarar. Existem espelhos então que podem até aumentar ou diminuir seus traços! Imagina? Melhor passar, dar aquela olhada de lado e seguir o caminho. Sem parar! E isso, antes de tudo, requer muita coragem, convenhamos. Ou medo. Afinal, nunca se sabe o que se pode enxergar em um reflexo. Pra quê causar uma revolução interior por livre e espontânea vontade? Mudança requer iniciativa e força. Não mesmo… Só que tem uma coisa: mesmo passando batido, um pensamento vai ficar. “Eu podia ter parado… O que será que tinha naquele espelho?”. Dúvidas… que podem doer muito mais do que a certeza.

Ah, a certeza… Pode ser fulminante ao ponto de afastar ou a razão de um começo, talvez até de um recomeço. Pode terminar em paixões, ou quem sabe trazer à tona uma decepção inesperada. É definitivo, sabe? Nada daquele chato e sem graça “mais ou menos”. Algo tão certo que provoca rumos, idéias, sentimentos. Tá, que nem sempre agradam, mas que pelo menos são verdadeiros. E é isso que dá base para o resto. É branco ou preto. Por mais que o céu esteja cinza e nublado para os outros. No mínimo, evita que a chuva caia um dia sobre a sua cabeça.

É difícil, eu sei… Mas depois de tantos erros e acertos, eu vejo que é melhor ser assim. De modo que eu só tenho trocado de espelhos. Só isso. Mudando tamanhos e molduras, às vezes sem critério algum! Uns grandes, outros pequenos, daqueles de guardar na bolsa. Espelhos com mosaicos na beirada, outros de madeiras e ainda os de flores. Mas cada um refletindo um pouco de mim. Trazendo lados de uma pessoa que anda a passos largos pelos enganos da vida. Pedaços que, no final, só servem para me tornar cada vez mais real. Tanto para os olhos alheios, quanto para os meus.