Hoje ela resolveu tentar um batom vermelho. Eu gostei, ela não. Logo ela saiu e voltou com um pedaço de papel e arrancou a coisa fora. Seus lábios ficaram rosa escuro. Ela ainda ficou um tempo me encarando. Eu não disse nada.
Virando o rosto de um lado a outro ela observou a pele. Eu via os poros abertos, alguns cravos, uns pontos vermelhos de potenciais espinhas; via o desenho irregular das sobrancelhas, o nariz grande e a testa ainda sem marcas de expressão. Certamente ela também via, tanto que resolveu aplicar sobre tudo aquilo um líquido claro que pretendia esconder suas imperfeições. Eu achei que não escondia, mas a luz especial que ela acendeu fez com que a coisa funcionasse.
Ela então resolveu pegar o lápis de olho. Aproximou-se de mim, puxou com a mão esquerda a pálpebra direita e com a mão direita desenhou um traço preto e fino junto aos cílios. Sim, eu notei que estava um tanto torto, mas também não disse nada. Ela piscou, olhou profundamente para mim e sorriu. Eu também sorri.
Ela voltou a fazer os mesmos movimentos sobre a pálpebra esquerda e ali também tinham traços tortos. Ela piscou e sorriu novamente. Sim, o conjunto era lindo.
Pegando de um cotonete ela fez sombras em verde escuro pouco acima dos traços anteriores em ambos os olhos. Passou um pente pelos cílios, o que os deixou alinhados. Ela piscou repetidamente até o olhar pousar sobre mim com um carinho apaixonante. Eu me derreti, mas não disse nada.
Então ela voltou ao batom. Agora ela parecia não querer errar, porque ela abriu e estudou concentradamente diversas embalagens. Ela pegava uma delas, vinha para perto de mim, fingia passar nos lábios mas desistia. Fez isso umas cinco vezes até que ela pegou um gel quase transparente e passou. Houve brilho mas não cor. Ela me encarou séria, e eu achei melhor não dizer nada.
Ela soltou os cabelos que estavam presos e escovou os fios por inteiro. Ela sabia que aquilo era bonito e eu admirava com prazer. Deixei ela fazer a coisa com cuidado. Ela prendeu de um lado só, depois de outro só, até se decidir deixá-los livres mesmo. Apagou a luz especial que havia acendido há minutos atrás e sobre ela caiu apenas a luminosidade natural. Ela estava satisfeita. Eu também, e tanto estava que não disse nada.
Então eu ouvi vozes vindo da porta. Ela se afastou de mim por uns instantes e, quando voltou, não estava sozinha. Ela tornou a me encarar e, assim como ela, achei estar linda. Mas a outra moça que estava ao lado dela, que eu não conseguia ver, apenas ouvir, disse:
- Que você fez? Nem parece que se olhou no espelho. Tá horrível isso!
E eu pensei cá comigo: ora, bolas! Então o que é que eu podia fazer?