Aconteceu numa noite fresca, enquanto eu fazia um lanche no shopping. Ao redor da minha mesa estava um grupo de adolescentes, ou talvez pré-adolescentes. Deveria haver uns 7 meninos e umas 4 meninas. Apresentavam rostinhos de crianças, ainda com a pele muito lisa e limpinha, os dentes repletos de metal dos aparelhos, a boca suja de só falarem palavrões que eu só fui aprender depois dos 18. Não sei se só apenas motivados por hormônios em ebulição, embora eu ache que o fato de estarem em grupo também pesasse bastante, eles estavam em polvorosa. Falavam de fulano que beija assim, sicrano que faz aquilo, outros que fazem suruba. Todos estavam sentados em uma única mesa e riam alto e inconseqüentemente. Havia neles um quê de uma soberba e, ao mesmo tempo, uma ingenuidade que eu não pude deixar de me sentir afetada.
Foi ali que eu voltei no tempo.
Eu pude me rever no Granbery, aos 12 anos, na 6ª série. Eu era pequena se comparada aos meus colegas de turma. Sentava-me do fundo da sala, lado oposto ao da porta, perto da janela, onde eu pudesse me esconder atrás da cortina. Durante o recreio, eu ficava sozinha, após comprar uma coxinha e um refresco na cantina. Às vezes eu me juntava ao grupo da minha irmã, quatro anos mais velha do que eu. Mas a maior parte do tempo eu estava só.
Eu não queria saber a vegetação característica do centro-oeste brasileiro. Eu não queria decorar a fórmula de Baskara. Eu não queria ouvir os grandes feitos de Marechal Deodoro. Mas eu ouvia às aulas e aquilo me bastava para ir bem nas provas. Melhor do que a média.
Eu também não queria falar sobre rapazes ou saber como obter ingressos para a matinê do Front. Eu não queria azarar os meninos no intervalo. Eu não entendia o significado novo do verbo “ficar”. Eu não queria saber a nova conjugação do verbo “ficar”, quem fica com quem e quem quer ficar com quem. Mas eu ouvia ao cochicho e aquilo me bastava para não ir bem nas conversas. Pior do que a média.
A aluna mais inteligente da turma era também uma desengonçada menina, de pouco tato e assunto. Meus colegas de turma não falavam comigo. Esquisita, era o que falavam, e daí vinha o motivo para os recorrentes gelos que me davam meses a fio. Os professores jamais elogiaram meu desempenho nas avaliações, dado o meu silêncio ao entrar e sair da sala.
Eu mudava a olhos vistos. Havia menstruado aos 11 anos e já carregava um bom peso no sutiã. Meu corpo era estranho, eu achava, mas continuava a usar roupas que escondessem aquela evolução. As roupas, no entanto, eram infantis e não tinha nenhum atrativo. Lembrar disso me faz voltar mais um ano no tempo. Vi-me na festa de aniversário da garota mais popular da turma. Eu havia sido convidada! Minha mãe ajudou a me arrumar: um macacão jeans escuro com uma camisa jeans por baixo; havia um cinto amarelinho e o tênis combinava com o cinto; os cabelos presos num rabo de cavalo com uma fivela cheia de sapatinhos coloridos de madeira. Passei o dia procurando com minha tia o que dar de presente e, por sugestão dela, comprei uma colônia Giovanna Baby. Eu estava exultante e, finalmente, poderia ficar mais próxima das meninas populares da sala. Ao chegar na festa, eu parecia um peixe fora d’água. Todas as meninas de saias curtíssimas, camisetas tão curtas tanto e sandálias que tinham ao menos um saltinho. Do presente eu percebi que ela não havia gostado muito. Havia muitos meninos e todos estavam em conversas sobre o verbo ficar; ninguém jamais me escolhera para conjugá-lo. Os pais da menina me acharam um doce, talvez porque eu tenha passado a maior parte da festa com os eles. Eles insistiam para que eu fosse me juntar à turma lá fora, mas eu não consegui. Inventei um mal-estar qualquer para ir embora.
E mal-estar era a desculpa que eu usaria ainda muito tempo depois para me eximir de freqüentar a escola. Agora eu já me via na 7ª série, aos 13, um ano sofrido. Muitas pessoas não sabem disso, mas eu quase fui reprovada por falta às aulas. Meu pai levava a mim e a minha irmã de carro até a porta do colégio. Minha irmã logo se juntava à turminha dela e eu fingia que ia à Kombi comprar uma bala ou um chocolate para o lanche. Permanecia tempo suficiente do lado de fora para ver minha irmã entrar portão adentro. E então eu ia embora. Ficava andando pela cidade a manhã toda ou até a hora em que eu sabia tanto minha mãe quanto meu pai saíam para o trabalho. Voltava para casa e me escondia no quartinho de empregada que havia sido transformado em quarto de estudos. O verbo é esse mesmo, esconder, embora na época eu achava que eu estava apenas me focando em estudo.
Ali, com auxílio de um exemplar do Almanaque Abril, eu fazia listas dos livros que eu deveria ler para me tornar erudita, listas dos filmes que eu deveria ver para me tornar cult, listas das músicas que eu deveria ouvir para me tornar uma referência. A minha suposta inteligência era uma válvula de escape. Foi nessa época que eu inventei um país e uma língua; criei mapa e tudo, com o plano da capital, como também uma gramática com orientação de pronúncia.
Eu não tinha paciência para ler os livros que constavam de minha lista, mas eu assisti a muitos filmes. Eles forneciam uma reconstrução da realidade mais direta e aquilo que fazia ir longe com a imaginação. Eu parecia uma moça à frente da idade, mas na verdade muito pouco havia eu assimilado dos filmes a que eu assisti; hoje eu tenho de vê-los todos novamente para entender sobre o que de fato falavam. Mas foi por causa dos filmes que eu dei à minha imaginação uma incumbência maior do que ela talvez poderia cumprir: a capacidade de sonhar acordada, para ter de fugir do enfrentamento com a verdadeira realidade.
Eu sempre quis ser uma escritora e sempre acreditei que era falta de disciplina o que me impedia de seguir nesse caminho. Hoje eu tenho de admitir que a minha imaginação nunca foi usada para um fim criativo, mas como uma espécie de instrumento para auto-ilusão. As histórias que eu criava não eram para o deleite de outros, mas para o meu próprio, e elas só fariam sentido de mim para mim. O fato de, no entanto, eu escrever bem, sempre me cutucou por outro lado, blasfemando contra mim o quanto eu era um desperdício.
Naquela mesa de shopping, eu voltei ao tempo e percebi o quanto de isolamento eu havia preenchido minha vida. Se eu pudesse, eu teria pulado essa fase da adolescência, pois ela fora odiosa. Eu queria ter ido direto à idade adulta. E então veio a inevitável conclusão, que não saberia dizer se boa ou má, mas uma conclusão óbvia, que durante muito tempo foi dura de admitir e ainda muito mais difícil de aceitar: como não há maneira de ir da infância diretamente à juventude adulta, eu, durante todo esse tempo, havia escolhido permanecer em essência uma criança.
Uma criança no sentido mais mágico e livre, como se sofresse da síndrome de Peter Pan. Quando eu fico empolgada com alguma idéia, é notável observar a minha empolgação infantil, e apenas as idéias que são capazes de levantar essa minha criança merecem o meu verdadeiro empreendimento. As minhas brincadeiras, a que minha irmã e meu cunhado tanto se referem como minhas maluquices, nada mais são do que minha criança curtindo a vida infantilmente, sem maldade, sem malícia. Eu não consigo levar problemas e pessoas muito a sério, pelo menos não durante o tempo em que vale o “jogo do serinho”. Muitos dos meus valores ainda são infantis. E também muitos dos meus sonhos; um deles é, admito, o de encontrar um príncipe encantado.
Ando muito triste, ultimamente. Uma tristeza profunda que me tem feito ver a vida como ordinária e insípida. Uma má vontade impera meus sentidos. Gostaria de passar o dia dentro de casa, mais especificamente em minha cama, dormindo ou sonhando acordada. Gostaria de permanecer no “quartinho de empregada”, como anos atrás, e criar uma realidade falsa, mas segura e controlável. O mundo me machuca mesmo, tenho sincero medo das pessoas e expor-me a ele e a elas é ainda mais delicado. Mas ao mesmo tempo, sinto que cresce uma urgência, um grito de desespero de alguém que deseja fazer as pazes com o mundo e aproveitar a grandeza da vida, algo que eu experimentei, ironicamente, ao realizar um sonho de criança, que era estar em Londres. Nesse ponto, acho até que a vida está me empurrando para fora da cama.
Mas ao ter feito uma viagem de volta ao passado, uma viagem breve mas que fez ver tanto, uma coisa, no entanto, há de ser dita: eu não mudaria nada. Pois eu não saberia dizer se eu estaria escrevendo este texto caso minha escolha tivesse sido outra. Eu não saberia dizer se eu estaria mesmo escrevendo qualquer coisa.