Estou procurando todos os filmes e as músicas que falam de heróis. Quero saber de heróis aqueles que, na hora do grande desafio, não amarelaram, não fugiram e enfrentaram com honra o momento oportuno.
Cenas de batalha sempre me emocionam, e eu me pego então sendo uma mulher um tanto diferente por gostar de filmes de guerra. Fazia tempo que eu não revia o Gladiador. Ali está um homem inspirador, não só porque ele é representado pelo maravilhoso ator australiano Russell Crowe (o segundo mais maravilhoso na minha lista de atores favoritos). Maximus também é inspirador por ter sido um general destemido e por ter se mantido firme na hora em que deveria ser assassinado. Mas sua maior glória, a meu ver, foi ter entrado em arenas de gladiador e feito o que fez, diante da morte iminente a cada minuto. Teria eu a mesma coragem?
Fazia tempo também que eu não via O Senhor dos Anéis. Quer dizer, havia um hiato desde que eu vi o primeiro filme da trilogia pela décima oitava vez até ontem, que foi a décima nona. E ali tem o personagem do Elijah Wood, o pequenino hobbit Frodo, que ganha um presente de grego e fica, por isso, responsável por salvar o destino do mundo que ele vivia. E ao saber disso tudo, a pergunta que ele faz ao mago Gandalf é a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais corajosa: então, o que é que eu devo fazer? Essa prontidão para a ação é algo também inspirador.
Mas existe também, n’O Senhor dos Anéis, o personagem do Viggo Mortensen, aquele que no início nos é conhecido como Passolargo e depois descobrimos que ele é, de fato, Aragorn, o herdeiro ao trono do rei dos homens. O cara protela ao máximo assumir a responsabilidade da coroa. A desculpa que ele dá é os antigos reis terem sido corrompidos pelo poder e ele não quer se ver nesse mesmo lugar infame. A desculpa, sim, é válida, mas na verdade ele tem medo. E talvez ele tenha rezado para o momento em que ele deveria enfim ser rei jamais tivesse chegado. Ele permaneceria um mero guardião, comendo a sopa da responsabilidade pelas beiradas e permanecendo anônimo em florestas e pubs da Terra Média.
E então me vem à cabeça aquela bela música do Beatles, uma de minhas favoritas, que (em tradução livre minha) diz:
Pássaro negro cantando na calada da noite! Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar. Em toda a sua vida, você só estava esperando para esse momento aparecer no horizonte. Pássaro negro, voe! Voe para longe noite adentro!
Como reagir diante do momento em que tanto esperamos por chegar? Devemos fingir que somos gladiadores cuja sobrevivência depende de força e de determinação sobrenaturais? Devemos enfrentar o desafio com sincera disposição de espírito, como o Frodo, que seguiria mesmo que sozinho à Perdição? Ou devemos, como o rei Aragorn, protelar ao máximo a decisão para que, então, no último minuto, não nos sobrasse outra opção senão assumir o que nos cabe?
Digo isso porque chegou o momento em que eu estava esperando aparecer no horizonte. A carreira dos meus sonhos se abriu à minha frente, em forma de concurso público, que está exigindo de mim estudar coisas jamais vistas e que está operando em mim uma transformação. E eu preciso arrumar uma forma de controlar uma ansiedade de nível quase absurdo, que vem somada com insegurança e despreparo.
Que herói serei eu na minha própria história?
PS: O trecho da música citada dos Beatles, no original, é:
Blackbird singing in the dead of night.
Take this broken wings and learn to fly.
All your life you’ve been always waiting for this moment to arise.
Blackbird, fly!
Blackbird, fly, into the line of a dark black night.
A música se chama Blackbird, para os que quiserem ouvir.
Te respondo apenas com um poema:
TERCEIRO / O CONDE D. HENRIQUE
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.