A ansiedade é um monstro de mil braços. Sem cabeça.
Ele vem subindo primeiro pelos meus pés, dando uma ligeira sensação de tremor nas bases.
Depois as mãos hábeis escalam pelas pernas. O passeio desses vários dedos provoca uma coceira irritante, invisível, que não me deixa sentar confortavelmente.
Quando as mãos atingem meus quadris, as reações nervosas são tão incômodas que as pernas começam a balançar sozinhas, para cima e para baixo, num movimento mecânico e cansativo. Dobro uma perna sobre a outra, mas o efeito não cessa.
Então os braços se apoderam do ventre, apertando impiedosamente, e não há intestino que sobreviva a esse ataque covarde. A barriga se contorce, reclamando de dor e de tensão. O estômago fica pequeno e quer jogar tudo para fora, de volta para onde tudo veio.
A invasão dos pulmões por esses braços autoritários é talvez a mais severa. A respiração fica pequena, infantil, insegura. O ar, que quer ser engolido pelas artérias, é rejeitado por esse monstro, que imprime na circulação uma respiração própria, alienígena. Tudo se altera. Os batimentos cardíacos, o ritmo do sangue, a odor da pele, o penteado dos cabelos, a cor dos lábios, o sorriso no rosto. Tudo se desfigura, para o tom roxo acinzentado deste ataque terrorista que, a partir daí, se torna irresistível, intransponível, intransigente.
A tomada dos meus braços é uma questão de segundos. De repente, acabam-se as coordenações motoras. Os músculos se entregam e respondem inconscientemente com nenhum contragolpe. Meus dedos tremem, ou batem inconsequentemente qualquer superfície em que esteja em contato.
O pescoço não oferece obstáculos. Em breve, os mil braços e os zilhões de dedos invadem o quartel-general do meu corpo, seu objetivo último. Esse monstro deseja minha cabeça porque é um parasita, e urge pelos meus neurônios, pela minha sanidade, pelo meu bom senso. Deseja instalar em mim uma nova ordem, contrária ao fluxo das coisas. Quer me deixar insensata, entorpecida, intratável, impossível.
Não há sutileza nesse processo. Ele se alimenta da minha inconsciência, dos medos reprimidos, da baixa auto-estima, e os amplifica.
O cérebro é, no entanto, um órgão guerreiro, e resiste ao máximo a essa exploração infame. Quando o resto do corpo já se entregou sem luta, ele cria um movimento de resistência, não aceita que seu reino seja assim revertido de forma apócrifa. Empacota mensagens subliminares, sutis, sua única forma de ação, e envia-as pelo frágil pulso resiliente dos neurônios. Ele diz: o melhor remédio é a calma.
Calma, calma, calma, o cérebro repete. E o corpo, em transe, desesperado, totalmente ocupado. A cabeça dói, grita, parece que vai arrebentar. Mas a tortura do monstro não vai permitir que eu me rompa. Provoca, ao contrário, rompantes. Violência sai de minhas palavras, de meus atos.
Ah, insensatez!
Ah, impotência!
Não é o primeiro ataque que sofro, mas parece todo novo. Pega-me de surpresa, nos momentos em que eu esqueço que ele existe, no momento em que os desafios abrem a guarda. Oportunista que só ele, esse monstro não bate à porta, mas acha que foi convidado.
A ansiedade é um monstro de mil braços. E tomou minha cabeça.